Este gajo que está a dar um beijo ao Johnny é o Dan, o trompetista da banda. O Pete sentiu-se incomodado com este momento de carinho e foi arejar as ideias.
A noite de sábado no Milhões de Festa foi espectacular. Para além de estar no cenário romântico do anfiteatro nas margens do Cávado (mais conhecido como Palco Principal), os Man Like Me iam tocar às três da manhã. Como sou fã deles há algum tempo e como foram uma das bandas que tocou na festa de lançamento da VICE, em Portugal, achei que lhes devia dedicar algum do meu precioso tempo e ver se queriam conversar comigo. Enquanto andava pelo backstage a ver se via alguma coisa que me interessasse, dei de caras com o Tony e o Hugh, os managers da banda, e aproveitei para lhes perguntar onde andava a banda. No final da actuação dos Anti-Pop Consortium estávamos no bar a beber cerveja e a relembrar Londres. O Pete, o Johnny e eu decidimos encontrar-nos passado uma hora para falar um pouco sobre drogas, Londres e coisas da vida.
VICE: Então pessoal, estou ansioso por vos ver tocar mais logo. Querem um cigarro?
Johnny: Ya. Passa para cá o tabaco.Então, conta-me lá, há quanto tempo é que conheces o Nuno (o nosso editor)?
Pá, conheço-o há algum tempo, dois anos e tal, acho eu. A minha ex-namorada conhecia-o de quando ele vivia em Londres. Quase não o reconheci quando o vi aqui. Gosto da barba dele. Fica muito mais sexy assim.Fixe. Como é que foi crescer em Camden?
Sabes, foi divertido. Eu e o Pete somos amigos desde criança. Andámos na mesma escola. Foi lixado, mas conseguimos sobreviver. Bastou manter-nos fora de sarilhos, não foi?Camden é uma espécie de incubadora musical.
Bem, nós crescemos mesmo ao pé de Camden Town. Ficava tudo perto de nós. Não costumávamos sair muito. As nossas noites de sexta eram passadas em casa, no relax com um bom grupo de amigos, a fumar montes de erva, a misturar música e a criar cenas. Costumávamos ouvir hip-hop britânico, cenas tipo Tricky, e passávamos o dia a experimentar com música.É a segunda vez que tocam aqui em Portugal, não é? O que é que acham do público português?
Ya, adoramos o Porto. Tem um ambiente fantástico, é fabuloso. As casinhas junto ao rio são incríveis. Estão todas a cair de podres e têm tipo barracas em cima delas. Dá para ver os telhados em ferro todos corroídos, é lindíssimo. Da última vez, tocámos na festa da VICE em Portugal. O público foi excelente. Depois disso ainda fomos a uma after-party altamente e estava bué pessoal de Londres a tocar connosco.Vou-vos fazer uma pergunta estúpida: erva ou speed?
Speed! Não, na verdade, não. Podes fazer-nos outra pergunta? Deixámos de fumar erva quando tínhamos cerca de 18 anos. Deixáva-nos mesmo tolinhos, tornáva-nos anti-sociais e paranoicos. Tipo, há pessoal a fumar charros e a mandar outros tipos de drogas antes de ir para as aulas e assim. Eu nunca mandaria uma linha de coca antes de ir para uma aula e também não era capaz de beber uma caneca de cerveja. É ridículo. É óbvio que tivémos de parar.Sim, têm razão. A erva por vezes pode ser vista como uma cena tão na boa que as pessoas até se esquecem que é uma droga. Então… cocaína ou ketamina?
Cocaína. Como vês, nós curtimos cenas que nos deixem em alta. Aliás, sabes qual é que é a melhor de todas? Mefedrona. Existe disso cá em Portugal? Foi uma altura louca das nossas vidas. Podia-se encomendar por correio uma droga que agora é considerada Classe A e entregavam-te aquilo em casa e ninguém dizia nada. Foi uma altura estranha para toda a gente, especialmente em Londres.Não sei se a mefedrona se tornou muito famosa aqui em Portugal. Nessa altura ainda vivia em Londres. O que é que estão a achar do Milhões de Festa?
Adoramos a paisagem. É mesmo bonito. O palco principal também é fixe. O pessoal pode sentar-se ou pode ficar de pé e dá sempre para ver o palco. Reparámos que ainda nenhuma banda pôs o pessoal a dançar a sério. Esta noite isso vai mudar.Para vocês tocar no estrangeiro é como ir de férias?
Pete: Claro! É mesmo como ir de férias e nunca se esquece umas boas férias, não é? No outro dia estávamos a escrever uma música sobre o facto de nunca podermos tirar férias por causa de termos as prestações da casa para pagar, termos de tomar conta dos putos, cenas assim. Depois, vimos aqui tocar e divertimo-nos imenso. Temos a oportunidade de falar sobre Londres e sobre as drogas que curtimos. É um ambiente muito relaxado. Não somos uma banda muito grande, mas já tocámos pelo mundo todo. Adorámos tocar na África do Sul, em Los Angeles e em Nova Iorque.O que é que acham da piscina aqui do Milhões?
Johnny: Adoramos. Mas sentimo-nos ridículos. Tantas miúdas boas e tantos gajos musculados, sentimo-nos como se estivéssemos de férias com os nossos pais e não pudéssemos fazer nada porque não estamos bronzeados.Ah, não se preocupem com isso. Daqui a uns dias vão estar fixes. Estão a acampar?
Ah, nem pensar! Regra número um: nunca acampar em sítios quentes como este. A sério, aposto que vais acordar passado duas horas de teres adormecido, a morrer de calor, a suar por todos os lados e sem sequer conseguir respirar decentemente.Sim, foi exactamente isso que me aconteceu esta manhã. E qual é que o vosso festival preferido para tocar?
Pete: Se calhar o Calvi on the Rocks, na Córsega. Foi genial. Parecia-se um bocado com isto, mas o palco era construído nas rochas e por trás ficava o mar. Era incrível. E também nos trataram mesmo bem. No dia seguinte tínhamos de ir não sei onde, por isso deixaram-nos chegar mais cedo e a mãe de um gajo da organização cozinhou para nós. Foi uma experiência óptima.O vosso soundcheck é daqui a nada. Última pergunta. Qual é a vossa parte preferida de dar concertos?
Johnny: Bem, estamos a fazer uma cena que adoramos. Aos fins-de-semana, damos um concerto, tornamo-nos pessoas completamente diferentes e deixamos os nossos alter-egos à solta. Tocamos em cidadezinhas minúsculas onde as pessoas gostam mesmo de nos ver actuar e acabamos por nos divertir imenso. Depois do fim-de-semana, regressamos à nossa vida normal, aos nossos filhos, às prestações da casa, etc.POR ALEX BABAHMADI
FOTOGRAFIA POR ELDER MACEDO
Aquilo que define o Milhões de Festa não é o cartaz, por mais interessante que seja, ou a cidade, por mais bonita que possa ser, ou o facto de ter uma piscina, por mais bikinis que a povoem. Não: aquilo que define o Milhões de Festa é o dia zero, a véspera, o campismo a compor-se progressivamente mesmo antes da hora estipulada virtude de um simpático porteiro de idade, o encontro com semelhantes do e fora do mundo das redes sociais, a procura por um restaurante específico durante meia hora de caminhada e só se dar com ele porque a empregada teve pena de nós, o álcool que se bebe com bandas que lá vão tocar e com aqueles que vão escrever sobre as bandas que lá vão tocar e as conversas alimentadas a esteróides de lulz com malta que nos reconhece e elogia na rua porque, um dia, dissemos que os fãs de 30 Seconds To Mars eram merda. Ou seja: o que define o Milhões de Festa é o ambiente distinto, e quando o dizemos estamos a falar a sério. Isto não acontece em nenhum outro mais. E é por isso que o campismo ficou a abarrotar logo nesta noite. Já se tinha assumido o ateísmo nestas mesmas linhas, na última notícia sobre o festival; depois de se ter comido uma francesinha incrível, de se ter visto um golo inacreditável do João Moutinho e de se ter observado o pacifismo absoluto do chefe que tudo controla, qual Cristo, há que repensar esta posição. E ainda sem um único acorde tocado. PC
© Angela Costa
1º diaE eis que chegamos então ao primeiro dia: alguns escondem a ressaca da noite anterior com novas doses de álcool, outros procuram obtê-la para o dia seguinte; os que chegam atrasados suspiram por um lugar à sombra onde colocar a tenda (e muitos falharam esse objectivo); o sol convida aos primeiros mergulhos na famigerada piscina e é vê-los (e las) a desfilar de toalha ao pescoço e chinelo no pé pela rua do campismo abaixo até à mesma. Vão-se reencontrando pessoas e conhecendo outras, vai-se almoçando aqui e ali seja via Pingo Doce ou Bar do Xano, vai-se esperando pelos primeiros concertos enquanto a temperatura ainda amena não corrói a pele dos mais sensíveis. E já que este é o festival de música português por excelência, inicie-se este texto com cinco bandas portuguesas, tantas quantas as quinas da bandeira nacional. Não por uma questão de patriotismo, mas porque foi o que apanhámos durante a tarde, falhando de propósito os Hayvanlar Alemi para tratar de uns assuntos. Não é xenofobia, juramo-lo. É reconhecimento de que por cá existe muita e boa qualidade. PC
E essa qualidade existe nos Hill, que são Miguel Azevedo, João Guedes e um guitarrista fantasma. Como? É isso exactamente: a guitarra que se ouve é aquela encostada ao bombo da bateria e que é tocada única e exclusivamente através da reverberação. Ou seja, não é uma bateria siamesa, mas um enxerto de pele. Um concerto interessante e ritmado que abriu o Milhões de Festa com o que mais o faz mover, que é o rock n´roll. PC
Rock n´roll que é omnipresente nos Black Bombaim. O trio stoner foi chamado quase à última da hora para substituir os Föllakzoid, mas ninguém há de ter dado pela falta destes. Não se o avaliarmos pelo concerto em si, onde o riff falou mais alto e deu à piscina o toque ácido que faltava para ser uma experiência arrebatadora. E só não foi o concerto do dia porque, de madrugada, assistiu-se a uma das reuniões mais esperadas do ano. PC
Depois de meia hora longe da água regressamos à piscina para ver os Glockenwise. Esses mesmos, os expoentes do Rock Sem Merdas. E, sendo nós dos maiores fãs dos miúdos de Barcelos, não podemos deixar de explanar aqui a nossa desilusão. Não que a culpa tenha sido deles, tal como há uns tempos não foi dos Botswana, mas sim dos demasiados problemas de som que não deixaram que os Glockenwise criassem ondas na piscina (© A1000car Rodrigues). Houve situações em que a bateria desaparecia, em que a guitarra não dava o som esperado e até uma corda partida. Assim sendo, o que tinha tudo para ser um dos melhores momentos acabou por ser dos menos conseguidos... ou então, é Deus a dizer que eles têm é de ser cabeças de cartaz e não banda sonora de mojito. PC
O atraso na chegada a Barcelos implicou a perda de alguns concertos que prometiam muito. Entre eles encontrava-se especialmente Dirty Beaches o concerto na ZDB na noite anterior tinha sido belo e não haveria problema em repetir a dose, mesmo que Alex Zhang Hungtai se recusasse a tocar True Blue, haveria Lord Knows Best e muito mais. Após uma visita de reconhecimento ao recinto, fomos espreitar o palco SWR e, contrariamente às expectativas, não apanhámos com uma dose agressiva de metal, mas ouvia-se um pós-rock simpático. O palco do lado de Barcelinhos tinha ainda a vantagem de ter a cerveja mais barata (um euro, pois). NC
Muito depois da hora estipulada (convém dizer que pontualidade foi algo que não aconteceu neste Milhões, se bem que tendo em conta os concertos a que se assistiu isso não interesse para absolutamente nada), os Riding Pânico, totalistas das quatro edições realizadas até agora, sobem ao palco Vice para (re-)mostrar o seu cunho próprio de pós-rock aos que por lá começaram a aparecer. E sempre que o fazem surpreendem. Contaram com uma ajuda de peso - Chris Common, ex-These Arms Are Snakes, na bateria - e voltaram a fazer loas, através do riff, ao sol que se começava a pôr. Um belo concerto de uma banda que, virtude das raras aparições, continua a ser para muitos um segredo. PC
Havia uma indecisão sobre terminar esta piada idiota das cinco quinas analisando o concerto de Born A Lion ou o dos Motornoise. Escolhemos estes últimos porque o vocalista de Born A Lion possui sotaque brasileiro, o que desde logo os exclui. Isto não é um convite ao hate mail ou uma tentativa de arranjar convite para o Fórum Nacional, é mesmo o escriba que é uma besta com a mania que tem piada. (De qualquer forma os Born A Lion deram um concerto porreiro com bastante peso.) E vamos então falar dos Motornoise, e agora sim, provavelmente incitar ao hate mail: estavam completamente desfasados do resto do festival. São punks velhos e tocam um rock velho reminiscente das boas bandas dos anos noventa nacionais - mas, ao invés, soam aborrecidos e sem graça alguma. Pareciam contudo estar a divertir-se, e o vocalista era enérgico o suficiente para pôr a mexer o público que estava no Vice, mas o parco elogio acaba aí. Talvez com um estado de alma diferente se apreciasse melhor "O Vinho Anda A Cair-me Mal". PC
A viagem por terras estrangeiras começa então nos Æthenor, onde pontificam Daniel O´Sullivan e Stephen O´Malley, ou seja, Ulver e Sunn O))). Se havia o bichinho para os ver juntos, já que as suas bandas são estandartes do metal extremo, esse desapareceu à primeira noção de que os Æthenor são apenas e só uma banda de electrónica exploratória entediante (EEE[hhh...]), ou, muito resumidamente, Ben Frost sem colhões. Que, ao vivo, consegue ser bom q.b. para nos fazer aguentar mais de meia hora. Num espaço mais reduzido, quem sabe... PC
A brutalidade que faltou aos Æthenor fez inteiramente parte dos Shit And Shine. Dois coelhinhos, um doente mental e dois bateristas, drone electrónico e caos sonoro num estilo que lembrou os primeiros discos dos Swans. Isto durante o primeiro período em que andaram a testar as águas do público; depois arrancam num ritmo kuduro que pôs quase todos a dançar, de boca aberta e rasgada num sorriso, incrédulos com o que estavam a assistir. Essa mudança brusca há certamente de figurar entre os melhores momentos do festival, e não é para menos. PC
O primeiro momento altamente dançável do palco principal, oficialmente designado Palco Milhões, foi da responsabilidade dos Zun Zun Egui. Estes até estavam apontados ao palco Vice, mas uma troca levou-os até ao palco mais importante e, dizemos nós, muito bem: aquelas guitarras africanas (não é cliché, a sério, ouçam lá isto com atenção) deixaram pouca gente indiferente e desde logo, ainda dia claro, já muitos corpos se moviam em movimentos irrequietos. Vieram de Bristol, mas deram a volta à geografia e em Barcelos ouviu-se deles uma mescla sonora com preponderância africana, marcada por ritmos diabólicos. NC
Os Zun Zun Egui tiveram de trocar de palco com os Gama Bomb, e isso fez toda a diferença: só no Vice se poderia ter assistido àquela wall of death incrível que se formou aquando do pedido do vocalista. Os irlandeses saíram do baú dos anos 80 do thrash e deram aquele que era talvez um dos concertos mais aguardados desta edição, ou não se vissem por lá vários metaleiros a rigor com jaquetas de ganga e patches de tudo o que é banda, que rapidamente encheram o espaço. Os riffs que arrancam às guitarras soam datados, mas ao mesmo tempo como se estivéssemos a ouvir algo novo, como se nos tivéssemos esquecido deles durante o tempo que passámos a ouvir Metallica e Sodom e Kreator e afins na adolescência. Dois malhões: "Final Fight" (sim, sobre o videojogo, como que a confirmar o estereótipo do adolescente metaleiro nerd) e "Slam Anthem". Hão-de ter deixado satisfeitos todos os presentes, não só os fãs como os outros, até porque a sua boa disposição era contagiante. E ainda houve espaço para encore. PC
Sendo um festival efectivamente ecléctico, a verdade é que no Milhões nunca faltou rock. E por rock queremos dizer daquele rock másculo, enérgico, que não é definitivamente p´ra meninos. Os suecos Graveyard enquadram-se nessa categoria e no palco principal mostraram o seu rock semi-pesado, assumidamente herdeiro dos clássicos dos ´70s - Led Zeppelin, Deep Purple, Black Sabbath. Mostraram ter a lição bem estudada e foram desfilando riffalhada como se não houvesse amanhã. Mas havia ainda muita música a seguir e dali a meia hora já poucos se lembravam deles. NC
Para os Liars existiam grandes expectativas, mas acabou por ser um concerto algo morno. O trio, que ao vivo é quinteto, começou bem com o seu pós-punk de raiz tribal a fazer bater o pé, uma música assustadoramente dançável - pela guitarra violenta e batida pesada - que os tornou um caso sério. Ao longo do concerto, contudo, foram baixando de velocidade e mostrando o seu lado mais suave. "Proud Evolution" e "Scarecrows On A Killer Slant" são destaques óbvios, mas deles esperava-se muito mais. Ou talvez não, a julgar pelas repostas monocórdicas que deram em entrevistas durante a semana. PC
Liars © Angela Costa
Não há volta a dar-lhe: os regressos dos Veados Com Fome e dos Lobster eram dois marcos da edição de 2011 do Milhões de Festa, visto terem marcado o início da actividade da editora por detrás do evento. A invasão dos veados, dos Veados Com Fome, deu-se ao grito solitário de Santo Tirso é lindo, e temas como "Cachalote" ou "Paquito" encheram de riffs crus e vertiginosos o espaço já a abarrotar de gente. Foi um concerto preparado especialmente para o festival, mas depois de tamanha grandeza só nos resta pedinchar por mais. Até porque há muita gente que ainda não sabe que não existe uma única banda má que tenha ido buscar o nome aos colossais Mão Morta (os Black Bombaim que o digam também). Há que ensinar os miúdos de hoje. PC
Veados Com Fome © Angela Costa
Já os Lobster deram um concerto áquem.
Lobster © Angela Costa
É ÓBVIO QUE ESTOU A BRINCAR. É QUE NEM NAS MELHORES EXPECTATIVAS DE UM GAJO ISTO PODERIA TER CORRIDO TÃO BEM, TÃO GIGANTE, TÃO MAJESTOSAMENTE ENORME QUE NÃO HÁ COMO NÃO DEIXAR UMA PESSOA PARVA A PENSAR "ELES ESTAVAM MESMO SEPARADOS"? NEM PRECISAVAM DE TER TOCADO NO MEIO DO PÚBLICO, MAS TOCARAM, E SÃO SEM SOMBRA DE DÚVIDA OS MONOTONIX DESTE ANO NO QUE TOCA À INCREDIBILIDADE, À ARRUAÇA, AO ROCK N´ROLL, A TODAS ESSAS CENAS QUE HÁ QUE DIZER PORQUE, FODA-SE, QUE CONCERTÃO. E SE MUDEI DE REPENTE PARA UM ESTILO MAIS PESSOAL E COM MAIS CARALHADAS E COM O CAPS LOCK NO MÁXIMO É PARA QUE PERCEBAM A BOJARDA QUE ISTO FOI. PORQUE ELES PRATICAMENTE NÃO PARARAM DURANTE O CONCERTO INTEIRO, SEMPRE LÁ EM CIMA, SEMPRE A REBENTAR, SEMPRE COM A ELECTRICIDADE NO MÁXIMO, SEMPRE MALHA ATRÁS DE MALHA ATRÁS DE MALHA E O PESSOAL A TORCER PESCOÇOS COM O HEADBANGING, CARALHO, INTENSIDADE NO MÁXIMO, O PATRÃO A PASSAR POR CIMA DE MIM DURANTE O CROWDSURF, O DEUS QUE SE AGARRAVA À GUITARRA NESSAS MESMAS OCASIÕES, QUE PUTA DE PATADA, ESTA É UMA DAS MELHORES DUPLAS DE SEMPRE, DE SEMPRE, VOLTEM, VOLTEM, CARALHO! VOLTEM QUE NÓS PRECISAMOS DESTA MERDA COMO DE SANGUE NAS VEIAS!
PUTA
QUE
PARIU
PC
Resumo do festival.
Dia 22
Começámos o primeiro dia na piscina, como se houvesse outro sítio onde estar. Coube aos Hill a tarefa de acordar as gentes da moleza do calor das duas da tarde. Rock sabujo e de barba comprida, rápido, directo, alto, gritaria. Na piscina ouviam-se relatos de avistamentos do Hélio Imaginário, e por aquela altura do dia, era este o motivo de maior interesse. De salientar o set up marado dos Hill: 2 gajos, um a gritar e a bater num bombo de chão e um baterista que tem uma flying-v encostada ao ao bombo e que é tocada assim, por ressonância das batidas do pé direito do baterista. Com o esquerdo vai controlando, através de um pedal, a acima mencionada flying-v. Funciona e é original.
Não vimos Black Bombaim porque pensávamos que eram os Föllakzoid e porque fomos à tenda almoçar (salsichas com pão de forma, para quem quiser saber). Depois de almoço fomos comprar um cartão de memória a uma loja chamada Foto Humberto e voltámos para a piscina para ver The Glockenwise. Os Glockenwise são uma coisa impressionante: o rock que fazem é tão qualquer coisa de alegre e dançante que nem problemas de som, nem cordas a partir, nem guitarras a fazer feedback, nem tendas a cair conseguem estragar um concerto: estes putos (putos, quer dizer, têm a minha idade) levam tudo à frente. Aliás, estes imprevistos todos fizeram do concerto uma cena especial. Os Glockenwise, concerto a concerto, seja no Musicbox, na ZdB, no SBSR ou no Milhões, levam a alegria a quem ouve, tanta quanta eles têm (ou pelo menos parecem ter, mas nós gostamos de acreditar que estas cenas do rock adolescente são genuínas) a tocar.
Andámos perdidos à procura da porta do recinto e pelo meio passámos no palco L&L, que fica longe como o raio. Mais tarde ouvimos dizer que, apesar de lá haver bandas interessantes, a distância é um complete turn-off. Lá descobrimos a porta e fomos ver Riding Pânico, enquanto esperávamos que as barracas dos bebes tivessem cerveja. A organização do Milhões de Festa convidou os Riding Pânico para tocarem todos os anos no festival e fizeram muito bem, porque estes rapazes, do eixo Linda Martini/If Lucy Fell/Men Eater/PAUS, fazem música boa e possante ao vivo. Tivemos oportunidade de ouvir Maratona de Cona, que afinal é do caralho.
Depois de vermos um bocadinho de Motornoise, metaleiros bêbedos em negação a apelar à bebedeira, cagámos, interrompemos o visionamento de concertos para ir ao outro lado do rio à procura da tasca que a Vice dizia ter panados gigantes e uma bebida esquisita. Comemos os panados e bebemos o esquifante (ou lá como raio é que se chama aquela mixórdia).
Regressámos e deparámo-nos com um palco principal composto para ver Zun Zun Egui, senhores de um rock étnico com groove que, a espaços, consegue animar a (pequena) multidão.
Fomos atraídos ao palco Vice pelos segundos iniciais da primeira música de Gama Bomb: parecia metal do bom e mais a mais, não estava a dar nada no palco Milhões. Chegados, apesar d’a música continuar a sair boa, quem estava em palco não era quem seria de esperar, uns quaisquer metaleiros inveterados: não. Estavam antes um gordito, um baixito com bochechas rosadas e cara de puto e um vocalista que parecia uma gaja. Será que o metal se está a tornar tão democrático quanto o rock? Afastada qualquer dúvida acerca da qualidade da música dos Gama Bomb ao vivo, a característica a salientar da prestação da banda ao vivo é a teatralidade do vocalista: uma espécie de Jack Black em filmes como School of Rock e Tenacious D: Pick of Destiny só que com menos piada, mais cabelo e mais pujança metaleira.
NOTA: NÃO SE VIA TANTO DRAMATISMO EM PALCO DESDE QUE O FREDDIE MORREU.
Avançemos. Ouvia-se dizer no primeiro dia dia, um pouco por todo o recinto, que os Graveyard eram os Led Zeppelin do século XXI. Há quem vá mais longe e diga que são também os Deep Purple e os Black Sabbath deste século que por nós passa. Nenhum de nós viu a banda de Jimmy Page ao vivo.
NOTA: HOUVE, NO ENTANTO, UM AMIGO NOSSO CUJOS PAIS SE CONHECERAM NUM CONCERTO DA BANDA EM PARIS.
Portanto, não podemos comparar os Graveyard ao vivo (DVD’s são merda, YouTube também), mas que os suecos deram show, deram. E não é daquele show tipo João Baião nos seus tempos áureos, é daquele show tipo riffs com alma, headbanging com alma e letras com alma. Ao vivo, os Graveyard gostam de começar as músicas calminhas e arrancar a partir daí (funciona) e prolongá-las (não funciona) e apesar de não falarem nem se mexerem muito, nota-se, por qualquer via extra-sensorial própria do hard rock, que tocam com gosto, com alma e com dedicação. A lição importante a retirar para o futuro: se daqui a alguns anos os vossos filhos vos perguntaram o que é que se fez de bom nos anos 70 e não tiverem nenhum álbum que seja de facto desse tempo à mão, mostrem-lhes o Hisingen Blues. Ninguém leva a mal.
NOTA: SE OS VOSSOS FILHOS PEDIREM DEPOIS VÍDEOS, MOSTREM À VONTADE, PORQUE TAMBÉM AS CABELEIRAS DOS SUECOS VIERAM DIRECTAMENTE DOS SEVENTIES.
Dia 23
O segundo dia começou pesado na piscina. Duas bandas, os Traumático Desmame e os Mr. Miyagi, causauram os primeiros moshes molhados entre o palco e a piscina. Os primeiros com descargas sucessivas de distorção e bit-crush produzidas por uma voz, um baixo e um aparelhómetro qualquer que devia ter uma placa de som de 8 bits, todos eles carregados de electricidade. Os Traumático Desmame fizeram-nos lembrar uns Mão Morta electrificados.
NOTA: VÊEM-NOS À MEMÓRIA IMAGENS DE TARDES A VER A FAMÍLIA ADAMS NO CARTOON NETWORK SEM PERCEBER UM CARALHO DO QUE AQUELA GENTE DIZIA.
A segunda banda, os Mr. Miyagi, mais metaleiros, contaram com um vocalista incansável que ia do topo das colunas ao fundo da piscina em menos de um riff e com um público que parecia saber as letras todas.Até na piscina dos putos se fez mosh e headbanging. O ponto alto foi quando a banda se decidiu pôr a tocar o riff da Iron Man dos Black Sabbath.
NOTA: FICÁMOS COM VONTADE DE VER OZZY E COMPANHIA NAQUELE PALCO MÍNIMO EM FRENTE ÀQUELA PISCINA. O SONHO COMANDA A VIDA…
Enquanto esperávamos por Long Way to Alaska demos mais alguns mergulhos na piscina e por altura do início do concerto estávamos de papo para o ar na toalha. As duas primeiras canções não foram motivação suficiente para levantar o supra-citado papo, mas aos primeiro acordes de Sicilian Relation(ship), a música mais antiga da banda, com a qual os descobri, e ainda hoje a minha preferida, levantei o rabo e corri para a fila da frente.
NOTA: DA MINHA TOALHA À FILA DA FRENTE VAI MENOS QUE DA MINHA CAMA À MINHA CASA DE BANHO, O QUE DIZ MUITO ACERCA DO QUE É O MILHÕES.
A folk-pop às-vezes-fria-às-vezes-solarenga dos Long Way to Alaska caiu que nem ginjas pelas cinco da tarde naquela piscina soalheira. Depois de Traumático Desmame e Mr. Miyagi, soube bem ouvir guitarras clean, melódicas e vozes melosas. Nota para a última música do concerto (confesso, não sei o nome e não estou no meu pc para verificar): a guitarra funky fez dançar Barcelos, pelo menos aquela zona ali entre o rio e as piscinas.
Depois de LWTA fomos à tenda tomar banho (sim, nós fazemos disso) e descobrimos que a Amy Winehouse tinha morrido. Aos 27.
NOTA: APESAR DE ATÉ GOSTARMOS DA MOÇA, PARECE-NOS QUE O CLUBE DOS 27 JÁ NÃO É O QUE ERA E QUE A SUA EXCLUSIVIDADE, EQUIPARA-SE, POR ESTES DIAS, À DO RANCHO FOLCLÓRICO DE SERPINS.
Com o banho tomado fomos jantar francesinhas e perdemos Tigrala. Já se sabe como é o pessoal de Lisboa quando vem ao Norte, perde-se no festival de sabores que esta região oferece. Quando entrámos no recinto, depois de jantar, pudemos assistar a uma parte do concerto de Causa Sui. Não conhecíamos e ficámos fãs: um rock instrumental de base clássica e que quase sempre resvala para a psicadelia, com direito a guitarras flangerizadas, teclados-órgãos à boa maneira dos Doors, baixos com groove e um baterista furioso.
NOTA: CHEGOU-SE ENTRETANTO À CONCLUSÃO QUE O MILHÕES DE FESTA É O FESTIVAL MAIS PSICADÉLICO DE PORTUGAL. EM SEGUNDO, LONGE, VEM O SBSR, COM O CONCERTO DE TAME IMPALA E A CAMISA DO B FACHADA.
Voltámos para o recinto a pensar que tínhamos perdido MillionYoung para as francesinhas e quando fomos ver o que estava assinalado no programa como Kim Ki O, saiu-nos o chillwave do primeiro: alegria e júbilo. Com um chillwave mais preenchido e limpinho que a maioria dos nomes do género, a música de MillionYoung funciona muito bem ao vivo e o concerto serviu primariamente para pôr toda a gente a dançar, com batidas fortes e aqueles sintetizadores sujos que já se sabe, são a base deste tipo de música.
NOTA: MILLIONYOUNG É UM NOME DE MERDA E NÃO FAZ JUS À QUALIDADE DA MÚSICA DE MIKE DIAZ.
Depois de MY andámos a engonhar pelo recinto à espera de Anti-Pop Consortium. Confirmou-se: são um nome maior da cena do hip hop alternativo. Com instrumentais com uma qualidade acima da média e que vão do dubstep ao big beat e com ritmos sempre muito frenéticos, fizeram a festa e puseram a enchente de gente que os veio ver a dançar. Na fila da frente, fritos dançavam frenéticamente e um dos MC’s disse ‘Barcelos’ para aí 15.000 vezes.
Corremos para ver Vivian Girls e ainda as vimos no backstage a fazer a pep-talk pré-concerto. A prestação destas meninas foi tudo o que se podia esperar: a pop lo-fi fofinha ecoou por todo o recinto, os namorados agarraram-se, gente pediu à Katie para mostrar as mamas…
NOTA: HABITUADA QUE DEVE ESTAR A ESTE PEDIDO, A RUIVA DAS VIVIAN GIRLS TINHA UMA RESPOSTA NA PONTA DA LÍNGUA: ‘YOU SHOW US YOUR BOOBS’. 1-0.
Enfim: a banda percorreu a sua discografia e satisfez as necessidades dos fãs com as suas músicas curtas, rápidas e nostálgicas. Depois do concerto falaram com os fãs e assinaram discos (havia Share the Joy’s à venda no recinto). Tivemos ainda oportunidade de gozar com a baterista quando esta tropeçou num buraco e metade da equipa Filhos do Diabo excitou-se sexualmente (a metade solteira, claro está) quando a outra metade gritou ‘Vivian Girls’ para a Katie e esta nos acenou com aquilo que foi provavelmente o sorriso mais meloso da história do lo-fi.
NOTA: TEMOS QUE DESCARREGAR TODA A FOFURA QUE A BAIXISTA DAS VIVIAN GIRLS NOS INDUZIU, PORQUE SENÃO TEMOS UMA OVERDOSE COMO A AMY, SÓ QUE EM VEZ DE SER COM COCA, É COM URSINHOS CARINHOSOS. POR ISSO, CÁ VAI: FOFINHA FOFINHA FOFINHA FOFINHA FOFINHA FOFINHA FOFINHA FOFINHA FOFINHA FOFINHA FOFINHA FOFINHA.
Deixámo-nos ficar pelo palco principal porque a seguir era Secret Chiefs 3. Apesar de não conhecermos ouvimos falar maravilhas e vimos montes de t-shirts da banda no campismo. Apesar de o sono já acusar e termos visto o concerto cá de cima, achámos os SC3 uma agradável surpresa. O rock étnico-ocultista que faz lembrar uns Blasted Mechanism com tomates é bonito, tem energia e a banda tem boa presença de palco.
NOTA: O NOME DA BANDA E AS FATIOTAS QUE USAM REMETEM-NOS PARA TODO UM IMAGINÁRIO DAN BROWNESCO.
Estávamos mais preocupados em não adormecer até à hora de Bob Log e saímos a meio do concerto porque metade da equipa (a metade burra) pareceu-lhe ouvir o homem do capacete a tocar. Fomos até ao palco Vice e afinal era só o soundcheck. Ficámos por lá até ao início do concerto e, para citar os Lonely Island com Julian Casablancas no hit Boombox, ‘what happened next was a total disgrace‘. Desde que Bob Log entrou em palco com um fato de macaco de lantejoulas e o capacete que já faz parte da sua cabeça até que saiu de palco (na verdade ele entrou em palco já a tocar e saiu da mesma maneira) que ninguém parou: não parou o mosh, não parou o crowdsurfing e, acima de tudo, não parou a festa, a dança, a diversão e a celebração do rock. Aquele que foi para nós o melhor concerto do festival até então foi um reboost brutal para todos os cansados e sonolentos: as nossas almas abandonaram os nossos corpos e elevaram-se por cima das nossas cabeças ao nível do nirvana do rock. Tudo isto com licks e riffs que, apesar de simples, carregam toda a história da música americana, dos blues e do rock. Nem quando Bob Log III acelerava e os BPM’s se tornavam proibitivos para as pernas o público parou de dançar. Deboche total e completo nas prestações de I Want Your Shit On My Leg (com a Sónia e a Daniela, tornadas ilustres desconhecidas, ao colo do maior) e de Boob Scotch, entoada em coro por todo o público. Não há outra maneira de dizê-lo, Bob Log III é um showman do caralho e deu um show do caralho.
Dia 24
No terceiro dia, apesar de termos ido mais cedo para a piscina, não fizemos nada sem ser dourar o já anteriormente mencionado papo e mergulhar até à hora do concerto das Pega Monstro (que fora adiado para as 16h45). Assim sendo, não demos atenção aos concertos anteriores. Saímos a correr da piscina quando ouvimos os primeiros acordes da Palop. As Pega Monstro começaram calmo e arrancaram sem nunca parar. Sucederam-se canções como só elas as fazem por cá: curtas, aceleradas, nostálgicas (dissemos o mesmo acerca das Vivian Girls, já viram?), com melodias alegres e melancólicas e letras tragicómicas. Tocaram músicas novas: Carocho, Savanna 74 e Akon, esta última com acessos de raiva controlada na voz de Maria Reis a rebentar tudo, numa música que conta com um build-up brutal e uma melodia mais brutal ainda. De notar que as Pega Monstro contaram em sensivelmente 3/4 do concerto com uma segunda guitarra (o amigo Leo, de Kimo Ameba) que deu maior solidez e mais força às músicas. Acabaram com Paredes de Coura a pedir desculpa pelo facto de a música não se adequar ao festival. Dizemos nós que daqui a um ano estarão a tocar no referido festival, quem sabe uma Milhões de Festa.
You know the drill: tomar banho e jantar, voltar para o recinto para ver Papa Topo. A indie-pop SUPER fofinha com ocasionais laivos-rockeiros, deste duo espanhol encantam qualquer um. Deram um concerto solarengo num final de tarde igualmente abençoado. O público, espalhado pela encosta, sentado, deitado (duas raparigas dançavam em frente ao palco), ouviu e gostou. A banda não tem grande dinâmica ao vivo e grande parte dos instrumentos são samplados e lançados por um gajo que está ao lado do palco, mas ainda assim os Papa Topo proporcionaram um final de tarde bastante agradável. Destaque para a recta final do concerto, com Oso Panda, Lo Que Me Gusta Del Verano Es Poder Tomar Helado e uma música final de nome desconhecido para nós mas de carácter mais rockeiro e mexido que o restante portfólio do duo espanhol.
Depois de um horário de jantar alargado devido a complicações várias, quando voltámos para o recinto já o concerto das Electrelane ia a meio. Ainda assim pudemos comprovar a qualidade de música que estas senhoras fazem. Chamem-lhe rock alternativo, electro-pop ou electro-rock, a música é boa e ao vivo tem muita força. Como seria de esperar as músicas mais ‘pesadas’ e com mais energia são as que melhor funcionam em concerto, mas as baladas sintetizadas das Electrelane também funcionam, especialmente com namorados ou eternos apaixonados. Este concerto foi uma oportunidade única de ver uma banda que não se sabe se fará mais digressões. Destaque ainda para a cover de Bronski Beat, claramente melhor que o original.
Seguimos para o palco Vice para ver Star Slinger e apesar de sabermos ao que íamos, ninguém estava a contar com o festão que o concerto do produtor inglês se verificou ser. ‘Baile de Free Dancing’ são talvez as palavras que melhor descrevem o que se passou: Star Slinger debitou batidas uber-dançáveis e samples e samples e samples de soul e funk e disco e R&B e o público dançou e dançou e dançou. Dançou como quis e como bem lhe apeteceu, ali não havia regras. Para melhorar tudo, por cima das batidas e dos samples tão dançáveis, Star Slinger mostrou as suas raízes chillwaveanas ao passar Toro Y Moi e Gold Panda. A propósito deste último, Star Slinger já adquiriu o epíteto de ‘O novo Gold Panda’.
NOTA: ASSIM SE FAZEM AS PONTES COM A EDIÇÃO DO ANO PASSADO. STAR SLINGER PASSOU TORO Y MOI E GOLD PANDA E DISSE QUE (ACHAVA) QUE ELES TINHAM ESTADO EM BARCELOS O ANO PASSADO. ESTIVERAM SIM SENHOR.
Voltámos para o palco principal a pensar que, com Washed Out, o baile continuaria. Apesar de menos eufórico, a festa manteve-se com muita gente a dançar, tanto na multidão em frente ao palco, como espalhada pelo recinto. Washed Out apresentou-se com banda: baixo, bateria e dois teclistas. Sinceramente não nos pareceu que o formato tenha trazido grandes vantagens, sendo talvez preferível, optar pela fidelidade às musicas gravadas (até porque o formato banda não traz grandes acréscimos de energia ou dinamismo). Destaque para os mui-dançados-e-celebrados New Theory e Amor Fati.
Por último, os Radio Moscow subiram ao palco principal para dar um concertão. Sempre a abrir do início ao fim. Riffs de ficar boqueaberto, solos de guitarra de tirar qualquer um do sério e até houve direito a um solo de bateria. O público delirou em alguns momentos como em Brain Cycles e I Just Don’t Know e perdeu completamente as estribeiras num de final de concerto absolutamente espectacular com o grande No Good Woman. Voltem em nome próprio que os Filhos do Diabo lá estarão.
Mais fotos do festival aqui.
Texto por Ricardo Correia e Miguel Teixeira.
Milhões de Festa – 1º Dia (22/07/2011)
Publicado por Arte-Factos em Julho 26, 2011 · Deixe um Comentário
Quem já está familiarizado com o festival, ou esteve mesmo presente na edição do ano passado, sabe que o Milhões de Festa é uma alternativa diferente a qualquer outro festival de verão cá em Portugal. Cada um tem as suas particularidades, é certo, e neste caso em particular, o ambiente que se vive no recinto e fora dele, pelas ruas da cidade, é qualquer coisa de extraordinário.
Há também o facto de que sendo um festival urbano, sediado em pleno centro da cidade de Barcelos, nos oferece a possibilidade de ter um palco nas piscinas municipais, onde de resto se iniciava a festa e os concertos logo ao inicio da tarde e um palco à beira do rio Cávado, novidade em relação à edição anterior. Mas não se ficam por aqui as novidades em relação aos palcos, com a parceria entre a SWR Inc., onde em Barroselas houve um espaço Lovers & Lollypops, desta vez foram as sonoridades mais pesadas a terem direito a um palco em Barcelos.
Voltando à piscina, onde tudo começou, era notório que havia ainda muita gente para chegar quando por volta das 14h os Hill começaram a tocar. Esta banda nacional tem a particularidade de explorar a ressonância proveniente de guitarras sem que elas sejam tocadas, ficam encostadas à percussão e vão vibrando à medida que Miguel Azevedo (Plus Ultra) bate violentamente no bombo e enquanto João Guedes (Sizo) empresta a voz a este projecto, são os ritmos tribais a iniciar este primeiro dia de festival.
Tempo para trocas de material, e sem esperar muito (o que este ano nem sempre se verificou), já estavam em cima do estrado de madeira os Black Bombaim, prontos para sem mácula nos apresentarem os seus temas. Tenho para mim que é sempre um prazer ver esta banda ao vivo, seja num recinto fechado e escuro, ou neste caso, à beira de uma piscina com o sol a bater-nos no corpo, e não estou enganado, mais uma vez irrepreensíveis, esta banda deu um belo concerto.
Com alguma expectativa, saí do recinto da piscina, e fui espreitar o palco L&L, onde iriam actuar os Botswana. Algo escondido, foi talvez o palco que mais deixava a desejar em termos de condições, junto ao rio de facto, mas com um piso em terra que não deixa muita vontade de ficar por ali muito tempo, faz-se um pequeno esforço já que o interesse para rever Bostwana era algum. Além de tudo o mais, aqui também há “amantes de música a sério, que estão dispostos a passar alguns sacrifícios para ver e ouvir os seus ídolos.”, apenas citando.
Infelizmente acabou por não dar, já que o atraso de cerca de 35 minutos fez com que me tivesse que deslocar de novo para a piscina, onde em breve iriam começar a tocar os The Glockenwise.
Ao contrário do que acontecia com os Black Bombaim, os Glockenwise tinham tudo a favor deles ao tocar naquele palco, no que ao tipo de som diz respeito. O rock festivo dá entrada em palco e nota-se a primeira grande reunião de pessoas junto ao palco, juntamente com outras que preferiram escutar atentamente de molho nas piscinas, vamos lá falar a sério, em que outro festival isto é possível? Assim, a banda apresentou algumas das músicas do seu disco de estreia, “Building Waves” . Cheios de energia como é hábito, houve tempo para inclusive o toldo que cobria o palco voar um bocadinho, deixando o sol incidir sobre os elementos da banda que continuavam a tocar e olhavam uns para os outros a sorrir com a situação. O concerto encerrou com “Goodbye”, tema de despedida dos The Glockenwise para com o público, é hora de continuar a festa, arrumar a trouxa e seguir para o recinto onde se encontram o palco Milhões e o palco Vice.
Enquanto se percorria o curto caminho entre a piscina e a entrada principal do recinto, dava já para ouvir o soundcheck dos Riding Pânico, banda que parece ter um “contrato vitalício” com o festival, e que tendo actuado em todas as edições, é uma parceria para continuar.
Desta feita em formato quinteto, sem Mike Ghost (dos Men Eater) na formação e com o grande Chris Common (These Arms Are Snakes) na bateria, os Riding Pânico mostraram-se em forma no palco Vice, e com vontade de preparar coisas novas, o que é uma excelente noticia para os fãs da banda.
Ao bom estilo de “ping-pong”, como foi descrito a passagem do palco Vice para o palco Milhões por Joaquim Durães, o grande responsável pelo festival, uma vez acabados os concertos num palco, era rumar logo ao outro, onde teoricamente estaria a começar outra concerto. Por isso, fui ver o que se passava com os Born A Lion no palco Milhões.
O rock alto sujo da banda entreteu o público que ia chegando, e com razão, foi um dos bons concertos do festival. Cumpriram e não desapontaram.
Já os Motornoise foram os primeiros responsáveis do dia pelo mosh que mais tarde se viria a intensificar. Com a sua sonoridade punk e apoiados num vocalista extremamente carismático e enérgico, os Motornoise animaram bastante os presentes, apenas e só para depois os Æthenor baixarem o nível de intensidade com o seu experimentalismo e som ambiente, não era para todos, e não foi para mim, ainda assim fica aqui o registo.
Depois disto, os Shit and Shine voltaram a aumentar o nível de decibéis no recinto, mas quem quer saber disso quando tem à sua frente um tipo de roupão branco e chinelos em palco, acompanhado por mais dois tipos com um disfarce de coelho? Para ser honesto, algumas pessoas quiseram, eu nem por isso e resolvi ir dar uma volta depois de ter visto um pouco do concerto.
No palco Milhões, houve a primeira reviravolta do festival, em vez dos Gama Bomb, subiram ao palco os Zun Zun Egui. Música que pôs a dançar as pessoas junto do palco e que para quem esteve no festival o ano passado, poderia trazer à lembrança o concerto de El Guincho, estiveram longe de atingir esse expoente, mas não deixaram de pôr à prova as capacidades das pessoas se abanarem ao som dos ritmos tropicais da banda.
Com a passagem dos Gama Bomb para o palco Vice, a romaria após o término do concerto dos Zun Zun Egui fez-de de forma rápida, cheios de energia e boa disposição, estes Gama Bomb têm algo de especial, são uns trashers irlandeses (nada tem a ver com ratings da Moody’s) que gostam de videojogos, beber e divertirem-se. Fora isso, fizeram o suficiente para nos fazer regressar no tempo à altura onde o metal de voz fininha reinava. Com o caos instalado no público, deram nas vistas e deixaram marca e possivelmente marcas, a quem esteve no moshpit.
Por esta altura, já muita gente esperava pelo começo do concerto dos Graveyard, os tais tipos suecos que conseguiram a proeza de destronar a Britney Spears do top de vendas no seu país.
Na descrição do folheto do festival podia-se ler que os Graveyard são “adeptos de um som rock clássico, inspirado nas bandas dos anos 70”, e foi isso mesmo que se pôde ouvir no palco Milhões, isso e muito mais, já que a banda não se restringe a isso e vai um pouquinho mais além com algumas improvisações e entradas em território psicadélico.
A primeira reunião deste ano no festival, e do dia, já que mais tarde aconteceriam outras duas, foram os If Lucy Fell. Parece mentira que esta banda não dê um concerto há dois anos, primeiro porque parece demasiado tempo e depois porque os elementos estão tão rotinados uns com os outros que parece que ensaiam todos os dias como se nada fosse.
Com Hélio Morais (Linda Martini, PAUS) na bateria, Rui Carvalho (Filho da Mãe) na guitarra, Pedro Cobrado (Men Eater) no baixo, João Pereira (Riding Pânico, PAUS) nas teclas e o sempre carismático Makoto Yagyu na voz, a banda deu um concerto repleto de energia, afinal era o último (vá-se lá saber se por algum tempo ou se definitivamente) e por isso foi dado tudo por tudo. Houve inclusive tempo para no final, a participação de Cláudia Guerreiro (Linda Martini), a juntar mais uma guitarra ao som já por si explosivo da banda.
Rumo ao palco Milhões, era altura de começar a tocar a banda cabeça de cartaz da noite, os Liars. Não deram um mau concerto, longe disso, mas foi um concerto morno, com alguns pontos altos (de destacar a “Plaster Casts of Everything”) e despediram-se do público com um encore que pareceu muito reticente de duas músicas.
E é assim que depois de terminado o concerto de Liars, toda a gente se muda para o palco Vice, onde iriam estar os Veados Com Fome e os Lobster, as tais duas reuniões de que falei há pouco.
Os Veados Com Fome, trio instrumental de Santo Tirso, reuniram-se especialmente para esta edição do Milhões e mostraram o porquê de terem sido um fenómeno tão grande dentro do underground nacional. Foi possível ouvir a excelente “Paquito” ou a muito pedida “Nelson” por exemplo, para um público nostálgico e que esperava por isto há muito tempo.
Foi no entanto com o concerto dos Lobster que este sentimento extravasou para níveis gigantes. Com o material montado no chão, à frente do palco e rodeados pelo público num espaço ínfimo, o duo guitarra/bateria arrecadou logo no primeiro dia o prémio para “concerto do festival”.
Anunciado como o concerto de despedida dos Lobster, parados há já alguns anos, deu gosto ver o reconhecimento a uma banda que tanto merece e que por isso foi acarinhada de tal forma que foi difícil não ver o misto de felicidade e espanto na cara do guitarrista Guilherme Canhão quando o público se entregou por completo ao concerto. Mosh, crowdsurfing, saltos, alegria, festa, emoção e caos são algumas das palavras que podem descrever o concerto, mas seguramente nenhuma delas pode fazer jus à comunhão que se viveu e sentiu ali. Portanto fico-me com isto, obrigado Lobster.
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Texto e fotos por Hugo Rodrigues
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Milhões de Festa – 2º Dia (23/07/2011)
Publicado por Arte-Factos em Julho 26, 2011 · Deixe um Comentário
O início do segundo dia do Milhões de Festa ficou marcado com o atraso dos concertos na piscina, o que acabou por condicionar o número de concertos vistos. Assim, com muita pena minha, os Mr. Miyagi tiveram que ficar para trás, e 1 hora depois da entrada na piscina e de ouvir alguns acordes dos Traumático Desmame enquanto me deslocava para fora do recinto, era altura de ir até ao palco L&L para ver e ouvir uma das bandas da cidade, os Indignu.
Com algum atraso também, já que pelo que pude observar aquele palco era o pesadelo dos técnicos de som e consequentemente das bandas (já os Botswana tinham sofrido com isso no dia anterior), os Indignu lá começaram a tocar e a mostrar alguns dos temas que compõem o seu disco “Fetus in Fetu”.
A banda soube ultrapassar os problemas de som e acabou por dar um bom concerto, infelizmente encurtado porque devido ao atraso verificado antes, acabaram por ficar com menos tempo para tocar, é pena, porque são situações alheias aos artistas, e se calhar era bom no futuro repensar um pouco melhor este palco L&L.
Ainda em relação ao concerto, os Indignu contaram com a participação especial de uma violinista, que deu mais alguma melodia às incursões pós-rock da banda.
Os Karma To Burn eram os senhores que se seguiam neste palco, e apesar de chamativo por toda a carreira da banda, era hora de voltar à piscina e meter os pés na água a ouvir os Long Way To Alaska.
Enquanto estive presente, o “punk de baloiço” da banda fez as delícias na piscina, é aliás um lugar que se adequa perfeitamente ao seu som, melodias fofinhas e quentes, propícias para o Verão.
Antes do final do concerto dos Long Way To Alaska decidi rumar ao recinto principal, e ver o que já acontecia por lá.
Os Tigrala faziam o soundcheck no palco Milhões enquanto entrava, o que faltando muito pouco para a hora marcada do começo do concerto antevia-se já aqui também algum atraso.
Nada que interesse muito quando a banda começa o seu concerto, já que o talento deste trio faz-se sentir logo no primeiro momento, o virtuosismo na guitarra de Norberto Lobo, com Guilherme Canhão desta feita no baixo e Ian Carlo Mendonza na percussão e voz (a repetir a presença neste palco Milhões depois de no dia anterior ter estado ali com os Born a Lion) fez com que os concertos neste segundo dia de festival começassem da melhor forma.
Já no palco Vice, devido a problemas técnicos, o concerto das turcas Kim Ki O foi cancelado e Millionyoung, que supostamente iriam começar após o concerto de Born a Lion, ocuparam o seu lugar no alinhamento, tocando mais tarde. Sendo assim, e com algum tempo livre para ocupar, aproveita-se para jantar, afinal uma pessoa também tem que comer.
Com alguma sorte à mistura, acabei por regressar ao recinto a tempo de ver os dinamarqueses Causa Sui, no palco Milhões.
Sem saber muito bem o que esperar destes nórdicos, posso dizer que foi uma das revelações positivas do festival para quem como eu desconhecia o trabalho desta banda.
Somos quase que obrigados a viajar pelo rock psicadélico da banda, através das linhas de guitarra de Jonas Munk, e soube bem, soube mesmo muito bem.
Dado por terminado o concerto dos Causa Sui, era então a vez de Mike Diaz, pessoa por trás do projecto Millionyoung, começar o seu concerto no palco Vice e de encenar os primeiros passinhos de dança no público, com o seu electro-pop. Confesso que não é a minha praia, e visto um bocado do concerto era altura de regressar ao palco Milhões e esperar pelo concerto dos regressados Kafka.
Banda de culto por aqueles lados, e um dos retornos mais aguardados do festival, os Kafka estão rodeados por uma atmosfera muito própria, onde o tom misterioso dos temas da banda são complementados com projecções de vídeo num pano ao fundo do palco, que ajudam a banda a proporcionar o ambiente pretendido.
Depois dos devaneios rock e experimentais kafkianos, era a vez de o hip-hop brilhar no outro palco, o Vice. Mas antes que isso pudesse acontecer, mais uma vez problemas técnicos assolaram o inicio da actuação dos Anti-Pop Consortium. Depois de um bom tempo de espera, e problemas resolvidos, o trio constituído por Priest, M. Sayyid e E. Blaze entrou em palco e começou a apresentar o álbum “Fluorescent Black”. Cheios de energia, esqueçam as noções de hip-hop que a MTV e afins nos tentam impingir todos os dias, os APC mantém-se fiéis ao movimento e deixam as músicas sobre bitches e carros quitados para outros.
Voltando ao palco Milhões, era a vez das Vivian Girls actuarem. De regresso ao nosso país depois de no ano passado terem estado pelo festival Paredes de Coura, estas miúdas nova-iorquinas trouxeram na bagagem um novo álbum, “Share the Joy”, e o que acabava por ser um dos concertos mais aguardados do festival, acabou por não se concretizar em termos de qualidade, situação que foi algo recorrente, talvez também por as expectativas serem mais altas que em relação a outros. Não deixou no entanto de ser um concerto competente, faltou apenas aquele algo mais que marca.
Coisa que não faltou aos Zu por exemplo, que mais que não seja, deixaram marcas na capacidade de audição das pessoas após o concerto. Este trio italiano toca alto, bastante alto, pouco ortodoxos na sua formação, em vez do típico baixo/guitarra/bateria, os Zu optam por substituir a guitarra por um saxofone, e fazem-no sem grandes dificuldades, já que o som do saxofone ecoou pelas muralhas junto ao palco Vice como se não houvesse amanhã. Adeptos de um som denso, algures entre umas composições jazz transformadas em metal, a bateria assume aqui um papel preponderante e acaba por ser o motor que arranca com tudo o resto.
Finda esta descarga de decibéis, e ainda com os ouvidos a zunir, o caminho até ao palco Milhões fez-se por uma última vez, iam tocar os Secret Chiefs 3, que tinham estado relativamente há pouco tempo pela ZDB em Lisboa.
Entram em palco quase como se fossem membros de um qualquer culto (ou feiticeiros do Harry Potter), ostentando umas capas negras de capuz e assumem os seus lugares. Dão nas vistas primeiro por isso, mas acabam por se destacar pela sua música, talento e versatilidade, que agradou à maior parte dos presentes.
Quem também dá nas vistas com as vestimentas com que se apresenta, é o senhor que se segue no palco Vice. Uma grande multidão recebeu Bob Log III, munido do seu capacete da força aérea americana com um telefone adaptado a microfone e o seu fato justo negro com brilhantes, era hora da one-man-band dar espectáculo.
Uma guitarra, um bombo e um prato de choques é tudo o que Bob Log III precisa para o seu set, bastante comunicativo e engraçado sempre que se dirigia ao público, o carisma vale-lhe de muito ao longo do concerto, e é uma plateia completamente rendida que espera pelo momento em que são convidadas duas raparigas para se sentarem nas pernas de Bob Log, para que seja interpretado “I Want Shit On My Leg”. Foi o que aconteceu mais para o final do concerto, e depois de mais alguns temas, o artista despede-se e sai de palco ainda a tocar, voltando depois para terminar e despedir-se.
E depois de uma actuação destas, achei que devia de dar por terminado o dia, e foi o que também fiz, despedi-me com um até já muito breve ao recinto do festival, afinal eram quase 4h30 da manhã e em breve iria estar ali de novo.
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Texto e fotos por Hugo Rodrigues
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Milhões de Festa – 3º Dia (24/07/2011)
Publicado por Arte-Factos em Julho 26, 2011 · 2 Comentários
Com a informação (rumor?) de que os concertos na piscina iriam começar uma hora mais cedo, às 13h, já que os MKRNI não tinham conseguido actuar no dia anterior na piscina e as Kim Ki O também não o tinham conseguido fazer no palco Vice, o alinhamento na piscina neste dia foi todo reorganizado e afixado apenas com o inicio do concerto das Kim Ki O, já passava das 14h. Assim, e depois de algum tempo passado debaixo de água a refrescar, decidi que não podia esperar mais pelo concerto de Larkin, apesar de ser uma das bandas que me chamava mais a atenção neste dia na piscina, já que estavam para começar os concertos nos dois palcos principais.
Despedi-me da piscina até para o ano, e segui para o palco Milhões, onde os Dear Telephone começavam a preparar as coisas para o seu concerto. Parte peixe:avião parte la la la ressonance, a banda move-se num registo pop, com melodias agradáveis e uma voz feminina e outra masculina. Foi um concerto tranquilo e benéfico para quem ia chegando e não queria gastar muita energia, já que logo a seguir iriam precisar dela.
Pois é, é que neste último dia do festival surge talvez a maior surpresa de todas, a união entre os Throes, duo composto por Marco Castro e Igor Domingues, e os The Shine. Ambos tinham já causado estragos no palco da piscina na edição do Milhões de Festa do ano passado, e este ano juntaram forças para nos mostrar o “rockuduro”. Impossível não nos deixarmos contagiar pelos ritmos vindos do palco, e que puseram todo o público a mexer-se. É uma fórmula ganhadora, e por favor, queremos mais.
Enquanto a energia ainda corria pelo corpo após o final do concerto Throes + The Shine, assistiu-se aos Papa Topo no palco Milhões. Que basicamente foi exactamente o oposto do que tinha sido experienciado antes, é certo que a música da banda estava de acordo com a hora do dia, finalzinho de tarde, mas não sei, ainda estou a tentar decidir o que achei do concerto da dupla espanhola. Uma coisa é certa, tanto o menino como a menina têm um ar demasiado fofinho, e cantam sobre o verão e comer gelados, não pode ser mau certo?
Dúvidas aparte, seguia-se FM Belfast no palco Vice, uns primos dos Scissor Sisters que fizeram a festa à força toda com muito boa receptividade por parte do público, de resto, parecia que o terceiro dia de festival ficava marcado pela energia do palco Vice a contrastar com a falta dela nas actuações no palco Milhões, algo que não mudou quando André Tentugal sobe ao palco sob o nome de We Trust acompanhado pelos músicos convidados que o ajudam a dar forma a este seu projecto. “Time (Better Not Stop)” anda na boca do mundo, e é mesmo a música que se destaca de todas as outras, fica-se à espera de um álbum que sairá mais para o final do ano para comprovar se é assim mesmo.
Com o final do concerto de We Trust, a correria é para o palco Vice, onde os Green Machine vão fazer a sua despedida definitiva, encabeçados por João Pimenta, que parece ser possuído por uma qualquer entidade marada assim que entra em palco (num bom sentido), a banda começa por pedir ao público que no final de cada música se grite “vamos matar esta banda”. O que aconteceu enquanto ela não morria, fica espalhado pelo suor e pela emoção deixada à frente daquele palco. Green Machine is fuckin’ dead.
Quando as Electrelane sobem ao palco Milhões, já há um mar de gente pronta para as ver, cabeças de cartaz da noite, a banda feminina reuniu-se este ano depois de quebrado o hiato em que se encontravam, para tocarem em alguns festivais, e a Lovers & Lollypops não quis deixar passar a oportunidade de as trazer novamente a terras lusas.
Foi um concerto que não desapontou, mas que por vezes chegou a parecer demasiado longo, ainda assim, saldo bastante positivo para estas 4 raparigas de Brighton.
No palco Vice, diz que Star Slinger é o novo Gold Panda, o que a mim não me aquece nem arrefece, na verdade, arrefeceu e por isso assisti a pouco do concerto, no entanto parece que para o final aquilo animou e a malta dançou que se fartou, é o que se diz.
Ainda por cima é provável que a malta tenha feito o percurso do palco Vice até ao palco Milhões ainda a dançar, já que se preparava para actuar Washed Out, o projecto de Ernest Green, que veio acompanhado por banda, dando assim outra textura ao chillwave que se ouviu. Animado q.b., mas começava-se a chegar ao fim da noite e do outro lado havia 4 baterias em palco, sinal que os Foot Village ameaçavam começar com a sua berraria e percussão infernal, mais uma vez, num bom sentido. As baterias dispostas em círculo levavam pancada que se farta, e os membros iam rodando entre eles, havia também um megafone pelo meio, há sempre um megafone.
E eis que ao terceiro dia, chegam os Radio Moscow e levam tudo à frente com as guitarradas sónicas e a bateria devastadora no palco Milhões, foi difícil aos seguranças controlar a intensidade do concerto junto às grades, que devem ter avançado uns belos centímetros de cada vez que Parker Griggs e companhia aceleravam. Sem dúvida um dos concertos do festival.
No entanto, e apesar do cansaço acumulado ao longo dos três dias, haveria ainda tempo para dar mais uma saltada ao palco Vice, onde os Comanechi, banda da louca Akiko, que com a sua pequena estatura faz inveja a muita gente do alto dos seus metros e oitentas e muitos. Ela pula, ela berra, ela vai junto ao público moshar como gente grande e tudo isto com a maior das naturalidades, como se não fosse nada com ela. Foi o caos instalado e um final de noite/inicio de madrugada bastante bom e insano.
Para quem ainda teve forças e vontade de ficar, houve Secousse a encerrar o festival, para outros, como eu, estes três dias encerraram em Comanechi. Para o ano há mais.
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Texto e fotos por Hugo Rodrigues
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Milhões de Festa é título adequado a um festival com coração rock mas que se faz magnífica montra de diversidade
O relógio aproxima-se das seis da manhã e, no horizonte, a alvorada anuncia-se púrpura. No palco com vista para o rio Cávado,o sono não vencerá. Os Secousse estão a oferecer aos muitos resistentes ritmos africanos ondulantes. E não estão sós. Primeiro subiram três raparigas, depois um par e no fim já eram tantos a dançar em palco quantos cá em baixo. Os Secousse sorriam, o público sorria e aplaudia. O público era também o concerto. Final de festa perfeito para um festival de nome certeiro: Milhões de Festa.
Entre 22 e 24 de Julho, Barcelos acolheu meia centena de bandas e cerca de três mil pessoas por dia, uma família alargada a partilharum festival de celebrações e descobertas que é um segredo e que assim se deve manter. Liars, Electrelane, Washed Out, Anti Pop Consortium ou Radio Moscow: figuras de destaque do indie da última década, nomes que ajudam a definir a pop do presente, hip-hop de olhos postos no futuro e rock"n"roll com melenas à antiga. Tudo reunido neste Milhões de bom gosto impoluto, sem a presença torturante de patrocinadores e com uma dimensão humana que fez da vida um acontecimento especial. Ali, entre as piscinas municipais (onde havia palco e onde tudo começava), as margens do Cávado e um parque fluvial que se tornava no centro da acção quando o dia avançava.
Aconteceram coisas como a ocupação da estreita Rua da Palha por um bando de loucos admiráveis em palestra sobre um "movimento" chamado Chung Wave. No início da noite de sábado, ouviu-se house chunga adequado a Ibiza (era a Foice Humana comÉ Só Meninos), os convidados The Macaques, de João Moreira, criador de Bruno Aleixo, cantaram José Mourinho ou uma inesquecível Bairrada e uns terroristas noise chamados Feia Medroño fizeram a primeira homenagem do dia a Amy Winehouse - Cocaine bitch, gritaram vezes sem conta. Este evidente gozo pop, essa partilha de códigos comuns, ligados à música e à cultura a ela ligada, é outro pormenor que torna o Milhões, que cumpriu agora a quarta edição - segunda em Barcelos -, num acontecimento singular. Ali, raparigas bonitas vestem t-shirts dos Black Sabbath e perguntamo-nos o que significava o Triceratops gigante que a organização colocou ao lado da bilheteira.
À beira da piscina
No último dia, domingo, enquanto as Pega Monstro cantavam a música que fará uma geração de 18 anos pegar em guitarras e desatar a formar bandas, Joaquim Durães, conhecido por Fua, o homem da promotora Lovers & Lollipops, co-organizadora do festival com a Câmara Municipal de Barcelos, dizia-nos que não tem grande interesse em que o festival cresça além da actual dimensão, por questões práticas - não se consegue pôr mais de três mil pessoas em condições confortáveis -, e porque seria desvirtuar a sua natureza. Naquele último dia, com os ingleses Man Like Me, que haviam tocado o seu electro pop de bom gosto no dia anterior, a flirtarem com miúdas à beira da piscina, os LSD Mossel a decidir onde dar um novo concerto - o duo holandês que toca thrash-metal em guitarra e bateria de brincar improvisou cerca de uma dezena ao longo do festival -, só podíamos dar razão a Fua. Tínhamos na memória o concerto de Dirty Beaches na sexta-feira, rock"n"roll de um homem só que assombrou a margem do rio sob o calor escaldante. Lembrávamo-nos do furacão Liars, cabeças de cartaz do primeiro dia, e da sua furiosa convulsão de sintetizadores, guitarras e voz ameaçadora. Assistíramos a esse momento emocionante que foi o concerto dos Lobster às 4h do dia de estreia, com o duo instalado entre o público e com a guitarra e a bateria unidas em libertação rock"n"roll a fazer a mais bonita elegia à comunhão global que vimos no festival.
O Milhões de Festa 2011 foi onde os Tigrala de Norberto Lobo, Guilherme Canhão (guitarrista dos Lobster, aqui baixista) e Ian Carlo Mendoza se transformaram em xamãs eléctricos, foi onde os Glockenwise, imparável máquina rock barcelense, choraram a ver os Green Machine, da geração anterior das máquinas rock barcelenses, reformados para a ocasião. Tanto a destacar: o regresso das Electrelane, num concerto encerrado com a versão de I"m on fire, de Bruce Springsteen, que nos deixou saciados; o portento psicadélico que são os Radio Moscow, pairando numa galáxia distante como se os anos 1970 fossem hoje (e são muito bons) ou esse enormíssimo Bob Log III, a one man band do Arizona que, capacete na cabeça, guitarra nas mãos e pé no bombo, utilizou o blues como matéria inflamável que transformou o palco Vice num festim dançante que faria os Chemical Brothers corar de inveja.
Coração rock
O Milhões tem o coração no rock"n"roll, mas é uma magnífica montra de diversidades. Num momento ouvimos o hip-hop futurista dos incríveis Anti Pop Consortium, no outro saltamos ao som das Vivian Girls, a melhor banda que os anos 1990 não conheceram. Depois, vemos irromper na piscina uma coreografia aquática ao som do rock psicadélico turco de DJ Fitz, maravilhamo-nos já a noite vai alta com Star Slinger, produtor de Manchester que é um prodígio na manipulação de memórias antigas da soul e do funk, e viajamos com os Washed Out até esse país mítico onde o Verão é eterno, o oceano imenso e os sintetizadores dos anos 1980 ferramentas oníricas insuperáveis - o nome maior da "chillwave" estreava-se em Portugal.
Até pode haver atrasos, até pode suceder que os islandeses FM Belfast, que deram o concerto-festa do festival na tarde do último dia, vejam interrompidos, por falha de energia, os seus delírios irresistíveis, de tão "chungamente" bem-humorados - cantou-se, por exemplo, Welcome to jungle ou Killing in the name of em versão electro pop. Neste contexto, não passam de pormenores.
Às seis da manhã de domingo, estava uma multidão em palco com os Secousse e outra multidão dançava cá em baixo. Tudo de sorriso parvo de felicidade estampado no rosto. Milhões de Festa. Ainda agora acabou e já temos saudades.
O Milhões de festa decorreu em Barcelos de 22 a 24 de Julho
Foto: Daniela Espírito SantoMilhões de Festa: Festival "não vai virar mainstream", garante organização
Por Daniela Espírito Santo - des@icicom.up.pt
Publicado: 26.07.2011 | 17:52 (GMT)Finalizada o Milhões de Festa deste ano, o JPN esteve à conversa com dois membros da organização do festival, que fizeram um balanço da edição 2011. Ainda não há certezas quanto a uma nova edição, mas fica a vontade de regressar em 2012.
A edição 2011 do Milhões de Festa já terminou, pelo que é tempo de fazer contas à vida. O JPN esteve à conversa com Vítor e Márcio, da Lovers & Lollypops, para saber como correu esta segunda edição em Barcelos.
Segundo a organização, o balanço é "bastante positivo", pois, "tirando um pequeno percalço no segundo dia [onde duas bandas ficaram sem instrumentos devido a atrasos com voos], tudo correu bem". Ainda não se sabem números concretos, mas, conta a organização, passaram "cerca de três mil pessoas" pelo festival. "A afluência de público foi muito boa, a cidade esteve cheia de gente e as pessoas divertiram-se bastante", garantem.
A explicar tal afluência de público está a aposta da organização na divulgação do evento na Internet e, sobretudo, em blogues. Mas o passa-a-palavra de bandas e público também tem ajudado. "As bandas têm gostado de vir cá e do ambiente do festival. As pessoas andam atentas a isso e acabam por saber do festival dessa maneira", entendem.
Com uma "programação super eclética e que tem em conta o divertimento e a música", o Milhões consegue atrair pela diversidade. "É estranho ver Graveyard e Papa Topo no mesmo festival", facto que, "parecendo que não", faz do festival tema de conversa entre amigos. "As pessoas acham estranho e vão passando a mensagem", dizem.
"É complicado encontrar um lugar tão acolhedor como este"
A palavra já chegou, até, ao estrangeiro, contando o festival com uma presença forte "tanto de ingleses como de espanhóis". "Tivemos boa adesão da Galiza e tivemos pessoas de Madrid e Barcelona cá", dizem Vítor e Márcio. Entre os espanhóis, descobriram até um fã peculiar. "Este ano tivemos um senhor chamado Roberto, da Galiza, que participou em todos os passatempos e comprou bilhete na mesma", diz a organização. "Ele fez posts sobre o festival em todos os blogues que conhecia de música independente em Espanha, participou nos vídeos sem intuito de ganhar um bilhete e vir de graça ao festival", acrescentam. "Participou porque se sente identificado com a filosofia e queria fazer parte de alguma forma", garantem.
Este aumento exponencial de público, de resto, é encarado com maus olhos por muitos dos participantes, que têm receio que o festival vire "mainstream". "Isso é normal", garante a organização. "Nós queremos que o Milhões se afirme como um festival a ter em conta na rota de festivais, somos pessoas jovens, fazemos isto por gosto e chegar a este ponto é incrível". Mas, esclarecem, chegar a mais gente não será sinónimo de mudança. "Nós temos uma ideologia e uma forma de programar que é bastante própria e não queremos abdicar dela, tendo o festival cinco mil pessoas ou cem", garantem. "Queremos continuar a trazer aquela banda fetiche que queres ver mas mais ninguém sabe que existe e aquela banda em que apostamos, que não conheces mas acreditas que vais gostar", explicam.
Por isso, respirem os mais assustados, que o evento não vai perder qualidades. A organização garante que o Milhões de festa "não vai virar mainstream", até porque existem "limitações de espaço" e não estão a pensar "sair do sítio tão cedo". "Adoramos estar aqui. Apesar do festival ter nascido da itinerância, a acontecer em Barcelos, será sempre aqui", asseguram. "Um dia pode ser que mude para outra cidade qualquer", explicam, mas tal só deverá acontecer "se houver algo em contrário". "É complicado encontrar um lugar tão acolhedor como este, um espaço quase natural dentro do meio urbano", esclarecem.
Ainda não existem planos, no entanto, para a próxima edição. "Agora vamos ter calma, pensar sobre tudo". Mas, para já, só dá mesmo é para pensar em férias. Mesmo assim, fica a quase garantia de festival para o ano. "À partida, a não ser que algo aconteça, vai haver", dizem, mas "num festival sem patrocínios, cada edição posterior depende do sucesso da anterior". "Não temos isto garantido. Mas em princípio deve haver, é essa a nossa vontade", rematam.
Durante três dias, o Milhões fez a Festa da diversidade em Barcelos
Foto: Daniela Espírito SantoMilhões de Festa: Electro, Pop, Indie e até Hip-Hop na despedida
Por Daniela Espírito Santo - des@icicom.up.pt
Publicado: 25.07.2011 | 14:35 (GMT)O terceiro e último dia de Milhões passou a voar e deixou toda a gente sem fôlego. Entre a loucura de Comanechi e FM Belfast, os riffs de Radio Moscow e o (mais recente) adeus a Green Machine, houve, como sempre, espaço para tudo e para todos.
O começo do último dia de Milhões de Festa de 2011 foi passado, mais uma vez, ao pé da piscina, palco "maior" das festividades e que consegue a proeza de agradar a gregos e troianos. O alinhamento, ligeiramente alterado para acomodar duas bandas que, por motivos técnicos, não conseguiram actuar no dia anterior, também fazia valer esse desejo ecléctico. Das performances que se fizeram ouvir ao pé da água, destaque para duas bandas, uma pelas melhores e outra pelas piores razões.
Depois de já Kim Ki O e Mkrni, as bandas "extra", terem actuado, e no meio do torpor causado por já três dias de festival, eis que surgem os Pega Monstro. Se o nome assusta, mais assustavam as vozes das vocalistas que, com letras inspiradíssimas onde falavam do que comeram ao jantar, despejavam berros agudos que fizeram muitos fugir do pé da piscina. Os que sobreviveram ao "ataque" da banda de Lisboa tiveram como recompensa a actuação dos Larkin, que começaram logo o concerto com o vocalista em cima do público (literalmente). "Acabou-se o sossego", garantiu o aventureiro enquanto saltava para cima das colunas e levava os adeptos de mosh na água ao delírio.
Para quem fugira para o recinto principal, uma programação mais apaziguadora. Dear Telephone, banda que abriu o palco Milhões neste último dia, mostrava o porquê, apesar dos poucos meses de existência. Entre as canções que compõem o EP de estreia e versões como "West End Girls" dos Pet Shop Boys, foi caindo a tarde no palco principal. De seguida, os Papa Topo acabaram um pouco com o momento de contemplação que se vivia no palco Milhões, com músicas que pareciam saidas dos desenhos animados "Doraemon" e convidavam todos a passinho de dança com cheiro a Verão.
Mas a revelação do dia surgiria no palco Vice, ali mesmo ao lado e a dar que falar neste último episódio do Milhões 2011. Descrever o concerto dos islandeses FM Belfast é prática quase impossível, mas há que tentar: vestidos à nerd, com direito a suspensórios e lacinhos, os FM Belfast depressa fizeram suar todos os presentes, desfiando o melhor do electro-pop enquanto se iam despindo (acabaram o concerto em boxers). Nem as falhas de electricidade (quatro, pelas contas dos presentes) interromperam a celebração da loucura. Improvisando ao máximo e usando o público como instrumento, os islandeses fizeram a festa, com ou sem luz, e vão ficar na memória de muitos como uma das melhores actuações desta edição.
A morte (dos Green Machine) e a ressurreição (das Electrelane)
Depois de um concerto destes, os We Trust, que se estrearam ao vivo neste festival, tiveram uma tarefa deveras ingrata... até porque, pouco depois, as atenções viravam-se de novo para o palco Vice, com o último (até ver) concerto dos Green Machine. Por entre gritos de "vamos matar esta banda", incitados pelo próprio vocalista, muito mosh e mergulhos na multidão, a banda de culto não desapontou os presentes. O concerto culminaria ao som de "Green Machine is Dead".
Mas o público queria era ver Electrelane. Depois de uma pausa de quatro anos, o grupo feminino era um dos grandes cabeças de cartaz do Milhões de Festa. As meninas de Brighton deram espectáculo, mesmo com instrumentos emprestados por outras bandas presentes, fruto de problemas com a companhia aérea que não lhes fez chegar o material.
Destaque final para Radio Moscow e Comanechi que, de duas formas completamente distintas, fizeram as delícias dos festivaleiros ao final da noite. O público que delirara com Graveyard teve em Radio Moscow mais um momento de glória, a encerrar em beleza (e recheado de solos de guitarra) as actuações no Palco Milhões deste ano.
Do outro lado do espectro, Akiko espalha o caos com os Comanechi, atirando-se para o chão, berrando, saltando e incitando ao mosh. Como a própria afirmou durante o concerto, era "impressionante a quantidade de gente" que estava "acordada e com vontade de saltar a esta hora" (eram quatro da manhã). Bem ao estilo que a caracteriza, Akiko fez tudo e mais alguma coisa para acordar Barcelos inteira.
Ao momento de êxtase histérico e caótico, seguiu-se a segunda actuação do dia dos Secousse, que trouxeram a festa africana, o hip-hop e o caos melódico ao (último) nascer do dia deste festival. Para o ano, espera-se, há mais.
A piscina do Milhões de Festa, com o calor que se faz sentir, é o ex libris do festival
Foto: Daniela Espírito SantoMilhões de Festa: Beach Party, Kafka e miúdos endiabrados
Por Daniela Espírito Santo - des@icicom.up.pt
Publicado: 24.07.2011 | 14:27 (GMT)E ao segundo dia de Milhões, a festa continuou "molhada". A piscina recebeu uma enchente de veraneantes/festivaleiros e o recinto principal entusiasmou com Kafka e Vivian Girls.
Segundo dia, segundo mergulho na piscina. Já ninguém dispensa a tarde passada ao pé da água, "regada" a Casal Garcia e com bolinhas de sabão à mistura. Os concertos na piscina são tão concorridos (será?) que a fila para entrar no "recinto" nunca mais acabava ontem, sábado.
Mr. Miyagi foi a primeira banda a dar música aos festivaleiros de chinelo de dedo. Mas podia ter sido outra qualquer, porque, com o calor que se fazia sentir, a principal atracção era mesmo a água. De seguida, Long Way to Alaska já soube melhor, ou não fosse a sonoridade do grupo coadunar-se de forma quase perfeita com o cenário que os rodeava. Alguns ouviam em pé perto do palco, outros ensaiavam coreografias na piscina em frente, muitos ouviam descansados nas toalhas de praia.
Depois de problemas de última hora com a banda que iria actuar, o "palco" recebeu um DJ peculiar, DJ Fitz, que conseguiu a proeza de misturar sonoridades muito díspares e colocar a piscina a dançar música indiana em grupo. Fim de tarde energético, para acordar quem tinha adormecido ao sol e precisava de rumar ao recinto principal.
Hora de jantar, para muitos. Para os festivaleiros mais acostumados a estas lides, as barraquinhas de cachorro e farturas nas imediações são mais do que suficientes, mas, para outros, é hora de ir ao Cristo Rei comer uma pizza ou ao Chispe (tentar) comer o famoso panado maior que o pão. Um café simpático depois dos bancos em frente ao recinto também está apinhado e o "Luau" ganha nova vida nesta altura, fruto da proximidade do Milhões.
Os regressos de Kafka (aos palcos) e de Vivian Girls (a Portugal)
De barriga cheia, segue-se para Kim Ki O, mas sem grande sorte. Problemas de logística impedem a actuação, substituída por uma dupla não identificada, mas que deu espectáculo no palco Vice. "MKRNI e Kim Ki O, que não puderam actuar, vão fazer parte da festa de Domingo à tarde na Piscina do Milhões de Festa", diz a organização no Facebook. Esperemos para ver.
No entretanto, já se adivinhava o regresso dos Kafka no palco do Milhões. O grupo inspirou toda uma geração de bandas em Barcelos e era um dos mais esperados do certame. Apesar da "responsabilidade", os Kafka não desiludiram, transportando o (muito) público presente a um imaginário kafkiano perfeito na sua melancolia e amigo do bizarro. Houve espaço para danças estranhas em palco e uma espécie de "stage dive", com projecções a preto e branco como pano de fundo.
As Vivian Girls foram as meninas que se seguiram, conduzindo o público de volta ao palco principal. E tudo aconteceria neste espectáculo, desde homenagens a Amy Winehouse (que foi encontrada morta ontem, sábado) a pedidos de autógrafos insistentes durante o concerto por parte de um miúdo, passando por outro tipo de pedidos mais adultos ("Show me your boobs", gritava um festivaleiro), respondidos à letra por uma das integrantes do trio nova-iorquino, que passaria tanto tempo em cima do palco como fora dele, a dançar com o público.
A noite continuou com Secret Chiefs 3 a despejar composição atrás de composição, com direito a violino em palco e muita diversidade sonora. No palco Vice, Bob Log III era o mais esperado da noite. Nos intervalos, davam-se massagens grátis para passar o tempo.
O Milhões de festa é um festival para todas as tribos
Foto: Daniela Espírito SantoMilhões de Festa: Melodias debaixo de água e para todos os gostos
Por Daniela Espírito Santo - des@icicom.up.pt
Publicado: 23.07.2011 | 14:12 (GMT)O Milhões de Festa é um festival peculiar. Se dúvidas havia, basta acordar "cedo" e rumar ao palco Piscina e deliciar-se com um concerto ao pé da água. À noite, a festa continuou no recinto principal, com Graveyard em destaque.
Comprar um passe para o Milhões de Festa é embarcar numa viagem diferente. Desenganem-se os mais "perdidinhos" que possam achar que este é um festival como outro qualquer, mas em formato "pocket". O Milhões é uma experiência. Entre o palco piscina, o Vice e o Milhões, a viagem pela ponte para aceder a outros palcos, muito há para fazer a partir das 14h00 e até às 4h00 nestes três dias "alternativos".
No primeiro dia e a uma hora da abertura da área principal do certame, a fila para levantar as pulseiras de acesso já ia longa. Pelas ruas adjacentes, um novo acessório tão conhecido dos festivaleiros do Sudoeste ou do Super Bock Super Rock: a toalha de praia. Aliás, para aceder ao palco piscina, o biquini e o calção quase que se tornam "dress code" obrigatório.
Enquanto as bandas vão passando pelo mini palco que mais parece uma tenda de festa privada, os veraneantes despem as roupas de festival e atiram-se à água. Houve tshirt e CD de Mr Miyagi para o melhor mergulho durante o concerto e orgulho barcelense na actuação dos Glockenwise, num dia que começou ao som dos Hill.
Um palco para todas as tribos
Quando o sol começa a fugir, é hora de rumar aos palcos "maiores". Hoje, como sempre, há música para todos os gostos e para todas as tribos. A banda que estreia a zona principal do festival este ano já é presença obrigatória no Milhões, desde 2006: Riding Pânico. O rock experimental do grupo atraiu uma boa massa de ouvintes, se tivermos em conta os standards de público de um festival como este: umas boas centenas de pessoas já são uma enchente a esta hora.
As actuações vão-se sucedendo e difícil é conseguir escolher as bandas a ver a qualquer momento, espalhadas pelos cinco palcos do evento. Entre as pausas para "abastecer" o estômago e consultar, mais uma vez, o alinhamento, ouve-se ÆTHENOR, que, com a sua forte componente experimentalista, servem de música ambiente (forte) de transição entre o espírito da piscina e os concertos que se seguirão durante a noite.
Destaque natural para os Graveyard que, depois de um enérgico e ecléctico (e deslocado - a banda deveria ter actuado no palco Vice e não no palco Milhões -) concerto dos Zun Zun Egui, trouxeram a magia do rock da velha guarda até à berma do rio que banha Barcelos. Pela primeira vez em Portugal, a banda sueca conseguiu reunir uma boa quantidade de rockers vintage ao pé do palco, misturados no meio dos hipsters, punks e restantes tribos que coabitam este espaço de celebração da diferença.
Seguir-se-iam, no palco Milhões, os reis do indie nova iorquino Liars, que encerraram em beleza o primeiro dia de actuações no palco principal. No Vice, mesmo ali ao lado, If Lucy Fell, Veados com Fome, Lobster e os Discotexas Gang (que devem voltar a actuar mais ou menos de improviso na piscina, no domingo) entreteram os mais resistentes até às tantas.